Dizem que os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus. Já eu não acredito em nada dessas tretas, mas acredito que há uma clara diferença entre os dois sexos: a nossa capacidade para atingir o orgasmo.

Sou ‘sexualmente ativa’ há sete anos, embora não tenha tido grande ação no primeiro (exceto a minha traumática primeira vez), então o melhor é dizermos seis. De lá para cá, já aprendi aquilo de que gosto e de que não gosto no quarto; o que me excita mais, as posições que são melhores para mim, o tipo de pessoa com quem sou compatível, etc. Porém, nunca cheguei à linha de meta, por assim dizer.

 Durante muito tempo pensei que seria um problema físico – ou seja, que o meu corpo era incapaz de atingir o orgasmo. Tive muitos parceiros nos primeiros anos já depois de perder minha virgindade, mas, apesar de estar notavelmente consciente do fato de nunca ter tido um orgasmo, também sabia o quão complicado era relaxar durante todo o ato, portanto não estava lá muito preocupada.

 Mas, volvidos uns anos – depois de alguns com bom sexo, mas sem sinais de orgasmo à vista, senti que havia algo de errado, portanto decidi resolver o problema com as minhas próprias mãos.

 Falando em mãos – já sei o que poderão estar a pensar: Mas obviamente já te vieste com masturbação?

Parto do princípio que essa é a tua pergunta pois já me foi colocada por toda a gente; amigos, parceiros e médicos. Partimos do pressuposto que fazer as coisas sozinha é mais simples: não há ninguém com quem nos tenhamos de preocupar, não precisamos de ser altruístas, não temos de tomar um segundo banho, etc. Mas não. Não me interpretes mal – tenho grande prazer sozinha, mas a coisa acaba sempre um segundinho antes. É como se eu pudesse ver a linha de meta lá ao fundo e o meu cérebro começasse a entrar em frenesim:

Clitóris: Uau, que cena incrível!

 Cérebro: OH MEU DEUS, ESTÁ A ACONTECER. TUDO A POSTOS! PREPAREM-SE!

 Clitóris: Hã, como assim? Para com isso, Cérebro!

 Cérebro: Não, vamos! TU CONSEGUES!!!

 Clitóris: Pelo amor de Deus. Sai. Já estragaste tudo outra vez.

 Os rapazes têm sempre têm a mesma reação: depois de algum desconforto inicial, dizem-me que serão os primeiros a conseguir. Tento explicar que não tem que ver com a performance da outra pessoa da cama, pois também não me venho quando estou sozinha… mas se eles não querem ouvir o que estou a dizer, fico feliz por me calar, deixando-os tentar resolver o caso.

Seja como for, marquei uma consulta com o meu médico de família e arrisquei. Não fico envergonhada facilmente, mas pareceu-me um assunto demasiado íntimo para ter com alguém cujo primeiro e segundo nomes eu já tinha esquecido. Expliquei a situação, logo de chofre, e sublinhei que era algo que me stressava. O médico acenava com a cabeça enquanto eu debitava, mas senti-me um pouco impotente; como é que poderia identificar-se com a minha situação quando a anatomia dele funciona de forma totalmente diferente? Contudo, marcou-me uma consulta para ser examinada fisicamente no departamento de ginecologia do hospital local, umas semanas depois.

O que aconteceu por lá deixou-me com bastantes cicatrizes emocionais. Senti-me desprezado pelas médicas novas e mais antigas que me examinaram, particularmente quando ouvi esta conversa já depois dos testes:

Médico: Então, tem um parceiro de longo prazo?

Eu: Não.

Médico: Oh… Então, qual é o problema, tendo em conta que não está com ninguém?

Eu: Bom, não consigo vir-me mesmo quando estou sozinha.

O que eles diziam, assim como o tom que usavam, fez-me sentir tão julgada e vulnerável, e questionei-me sobre se tudo aquilo teria valido a pena. A masturbação pode ser um assunto tão delicado para abordar, e falar dele com uma médica num hijab não me fez sentir menos desconfortável. Tive um pequeno colapso e comecei a chorar na frente da médica mais nova, que parecia assustada por ter me provocado tamanho sofrimento. Depois de me pedir desculpas seiscentas vezes e me dizer que a fiz recordar a sua irmã, referiu-me um psicólogo. Fui para aí a seis sessões, mas descobri que não ajudava em nada.

Desde então consegui resolver a situação à minha maneira. Posso nunca chegar a atingir o clímax (algumas mulheres nunca conseguem), mas isso não significa que não possa aproveitar o percurso rumo à meta. Diminuir a pressão que havia colocado sobre mim permite-me relaxar mais durante o sexo e isso fez com que toda essa provação se pareça menos com… uma provação.

Por Nancy Abraham

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