EDITORIAL by Paula Lee

INTERVIEW

Paula Lee

Cada acompanhante tem uma vida ou trajetória diferente. Ao contrário de muitas escorts, Paula Lee teve uma iniciação em boîtes, trabalhou de Norte a Sul do país antes de se tornar uma profissional independente.Há dois anos é responsável pelo blog Amante Profissional e em 2007 publicou o livro Alugo o Meu Corpo pela Dom Quixote. Abaixo uma conversa sobre as suas experiências, planos e expectativas.

PRAZER SUBLIME - É acompanhante desde há bastante tempo, tem uma experiência que está contada no seu livro e que as pessoas conhecerão. Como vê a acompanhante Paula Lee o acompanhamento em Portugal actualmente e o que deveriam mudar as profissionais e os clientes?

PAULA LEE - A acompanhante Paula Lee hoje é alguém interessada, em primeiro lugar, no estudo das relações humanas, porque é disto que se trata a minha actividade, relações humanas. Isso requer observação, estudo, determinação. Estou em constante mutação, tentando aperfeiçoar o meu atendimento, as minhas relações com as pessoas, entender o que poderei melhorar.

O acompanhamento em Portugal actualmente está banalizado. Nos últimos anos a actividade foi explorada de uma forma tão abusiva que o que se reflecte é o que podemos ver por aí, uma completa balbúrdia. Todo mundo finge que não vê, mas é o que está acontecendo com o acompanhamento em Portugal. Quem sai a ganhar com isso? Posso garantir que não é a profissional.

Se olharem para as páginas dos classificados dos jornais, facilmente lerão informações relativas a atendimentos sem o uso do preservativo. Está lá, mas só quando outra profissional, assim como aconteceu com a Verli em 2005, morrer com SIDA, que voltarão - nisso não falo apenas dos profissionais, como clientes, a imprensa e a sociedade em geral - a falar no assunto. Há uma tendência muito grande - e não digo apenas em Portugal - de se falar de algo apenas após não ter mais remédio ou solução. Prevenção? Que palavra é esta, tão pouco utilizada? E se há oferta é porque há procura, e disto sei bem, pelo facto de passar uma boa parte do meu tempo atendendo telefonemas a recusar atendimentos sem protecção, quase dando uma aula sobre doenças sexualmente transmissíveis ao telefone.

Algo que também marcou muito Portugal nos últimos anos é a descida constante dos preços das acompanhantes que publicitam seus serviços através dos classificados dos jornais. Hoje as conhecidas - ou desconhecidas para o público não frequentador de ambientes de prostituição - "praças" ou "quinzenas" quase já não existem conforme era antes a tradição - ou seja, locais com "preços" mais acessíveis aos clientes - visto que até os apartamentos normais de convívio trabalham pelos mesmos valores baixos.

Quanto aos "valores" pedidos pelas acompanhantes não posso protestar. O corpo é delas, se quiserem fazer o atendimento a 5€ a elas que cabe a decisão, se quiserem fazer o atendimento de graça, tudo bem também, jamais poderia impor a uma acompanhante quanto ela deve cobrar pelo seu corpo, seus serviços, sua companhia ou o seu tempo.

Mas quanto às relações desprotegidas, isso sim, creio que é papel meu, como de todos nós - acompanhantes, clientes, a sociedade de um modo geral - poder lançar um alerta e tentar acabar com essa irresponsabilidade que pode resultar na proliferação de doenças. Uma irresponsabilidade, tenho que acrescentar, que não só é alimentada pelos anúncios em jornais quanto em páginas web.

O que aconteceu em Portugal é que, ao contrário do que se pensa em função do grande número de bordéis que foram fechados, é que o "mercado", ou o número de profissionais ou de pessoas a explorar o mercado da prostituição, aumentou muito nos últimos tempos. Dentro de pouco tempo veremos que há mais profissionais que clientes. A prostituição foi banalizada, vulgarizada, rebaixada. Apesar de estar numa área de acompanhamento digamos assim mais selecto, conheço pessoas que trabalham em locais com condições menos favoráveis, e é isso o que se vê por aí: uma concorrência desmedida entre os apartamentos e profissionais que trabalham numa "escala de preços" menor. Mas a banalização e essa vulgarização não acontece apenas em ambientes com valores mais baixos: até profissionais consideradas mais "caras", ou inclusive profissionais independentes, também banalizam e vulgarizam a actividade quando se esquecem da responsabilidade social ou quando encaram o acompanhamento apenas em função daquilo que podem receber, esquecendo completamente que o acompanhamento está ligado às relações humanas. Em qualquer actividade há aquele tipo de profissional que só está ali durante o horário de expediente, como aquele que se dedica à profissão, que se aperfeiçoa, que tenta melhorar a empresa e o que é imprescindível, a relação entre a empresa e as pessoas, público, consumidores, clientes. No acompanhamento esse padrão também não foge à regra. Assim como há profissionais que apenas vão se limitar ao tempo, ao serviço ou àquilo que o cliente pede, há também profissionais que terão mais iniciativa, que tentarão melhorar o cenário, que pensarão por conta própria, que não se limitarão àquilo que parece mais óbvio. É preciso compreender que um cliente recompensa a acompanhante pelo seu tempo, para ter aquele tempo para ele, quando vivemos numa sociedade em que ninguém tem tempo para ninguém.

Nas profissionais, ou em algumas profissionais, deveriam mudar os seus valores, e quanto a isso estou a me referir aos seus valores pessoais. É preciso saber que no acompanhamento nós lidamos com pessoas, e que estas devem ser respeitadas. É preciso entender que, se o pré-requisito para se ser acompanhante fosse apenas o facto de se ter duas pernas, todas as mulheres poderiam ser ou seriam acompanhantes. É preciso encarar a actividade com profissionalismo - o que inclui o respeito pelo próximo, a ética, o aperfeiçoamento - e saber tratar o outro como ser humano. É preciso inclusive que, entre as próprias profissionais, deixem de ser concorrentes mas possam se tornar parceiras de trabalho, colaborando para melhorar o sector.

Nos clientes, ou em alguns clientes, é preciso tratar a acompanhante com respeito e dignidade. É preciso enxergar que a acompanhante não é um objecto, nem um produto em saldo, muito menos apenas um meio rápido para uma ejaculação. Se o propósito do acompanhamento fosse apenas a ejaculação, poucas profissionais encontraríamos por aí, visto que uma ejaculação pode ser atingida de muitas outras formas. É preciso que o cliente também tenha a sua própria ética, e que esta ética, ou os seus desejos, não venham a ferir o sector.

Não olho o cliente nem de cima e nem de baixo, mas de frente. Sendo uma actividade mais íntima, é preciso que os dois possam se olhar dessa forma.

Apesar de ter me concentrado apenas em pontos mais negativos, também há pontos positivos. Hoje há profissionais determinadas em melhorar a actividade, e estas, apesar de ainda serem um grupo pequeno, começaram a se juntar para a melhoria do sector. Há clientes que conseguem compreender e respeitar o acompanhamento, que prezam pela humanidade, que rejeitam relações desprotegidas, que fazem questão de encontrar com profissionais independentes, que respeitam seus estatutos, etc.

PS - O acompanhamento é uma profissão que pode preencher uma pessoa do ponto de vista da realização profissional tal como outras profissões ou é apenas algo que se faz entre coisas, por falta de outra melhor?

PL - Isso depende um pouco da expectativa de cada pessoa, e principalmente da ética de cada pessoa. Há quem seja acompanhante por falta de outra actividade melhor, como há quem seja acompanhante porque quer e encara a actividade enquanto profissão, e, assim como em outras profissões que exercesse, daria o seu melhor para conseguir essa realização profissional.

Conforme muitas vezes já referi, não escolhi ser acompanhante. E quando digo isso, pode parecer um preconceito em relação à profissão. Mas digo isso de forma natural, da mesma forma que diria caso fosse dentista e na verdade quisesse ser advogada. Quando eu deixar o acompanhamento, portanto, não será em função de achar a actividade indigna, ou como se estivesse a me livrar de uma doença. Quando deixar, será pelas mesmas razões de uma dentista que quer ser advogada. O facto de não ter escolhido ser acompanhante não me limita, ou não faz com que eu não possa ser humana com os meus clientes, que não me traga bons momentos, e inclusive amigos que vou levar para sempre no coração. Ou seja, não ia te arrancar um braço quando devia te arrancar um dente apenas porque queria ser advogada. Muito pelo contrário, se abracei uma profissão, mesmo esta não sendo a minha escolha, o meu papel é tentar melhorar cada vez mais essa actividade, caso contrário seria uma pessoa frustrada, e isso se reflectiria em todos que estivessem à minha volta.

PS - Se voltasse a iniciar o seu trajecto como profissional neste sector o que teria deixado de fazer e o que teria feito diferente?

PL - Se naquela época eu soubesse tudo o que sei agora, teria mudado muitas coisas. Primeiramente, jamais teria trabalhado em boîtes. (Isto é, se sem ter trabalhado em boîtes eu pudesse conhecer tudo o que conheço hoje, visto que até os momentos menos felizes, apesar de não serem muito bons para a memória, foram bons para o meu amadurecimento). Em segundo lugar teria logo sido selecta com os meus clientes, ao contrário do que fazia antes, pensando na quantidade e não na qualidade.

PS - O seu blog é um desabafo para quebrar o isolamento da profissional neste sector ou é um desiderato da autora Paula Lee, que por acaso é além disso acompanhante profissional?

PL - É ao mesmo tempo as duas coisas. Na semana em que acabava de colocar o meu blog no ar (apesar de alguma resistência minha, em função de querer desabafar mas ter receio de o blog ser entendido como uma forma de agressão, ou em função da limitação da liberdade de expressão, etc) a Verli, a tal acompanhante brasileira que faleceu com SIDA, era tema de inúmeras reportagens. E foi ao acompanhar todas essas reportagens que notei mais claramente o quanto o assunto ainda era tabu, ou o quanto a imagem do acompanhamento era desleal com a realidade.

Entretanto, como qualquer um pode observar, em apenas um pouco mais de um ano e meio de blog no Amante Profissional, já publiquei mais de 800 posts, e nunca pode se dizer que os meus posts são pequeninos, muito raramente o são. Até no meu recente blog do livro, olivro.alugomeucorpo.com, apenas no primeiro mês verifiquei que, somando todas os textos publicados num arquivo do Word, ele já ultrapassava as 150 páginas! Em apenas um mês! Nem o meu livro tem 150 páginas no Word, apesar de chegar ao público com 310 páginas no "formato livro", no Word ele tem apenas 130 páginas, a formatação que fez com que ele parecesse grande.

Ou seja, mesmo se o objectivo central fosse acabar com o isolamento, não teria permanecido de forma tão activa no blog se a minha paixão não fosse realmente a escrita. Ou então no máximo publicaria algumas fotos, textos curtos, pronto. Ou juntaria os meus 800 posts e colocaria tudo num livro, visto que, se não fosse apaixonada pela escrita, por que razão me daria ao trabalho de escrever algo novo, completamente original para o público?

Tive outros blogs antes destes em que a temática está em volta do sexo ou da prostituição. Deletei-os porque, apesar dos temas diferentes, e inclusive dos públicos que poderiam ser diferentes, poderiam logo reconhecer-me pela escrita.

PS - Cada vez mais as mulheres, e até os homens, estão a virar-se para o acompanhamento. O sexo está muito presente na internet hoje em dia, é um assunto que mobiliza as pessoas cada vez mais cedo e atravessa as diferentes classes sociais transversalmente. Acha que isto deve ser combatido ou incentivado?

PL - Não acho que deve ser combatido nem incentivado. Afinal a escolha é sempre da pessoa. Independente do que eu possa dizer, a escolha será sempre dela, e apenas dela. Entretanto, acho importante que, ao entrar nessa actividade, que pelo menos as pessoas possam então ter informações sobre o sector, para que possam exercer a actividade de forma segura, e inclusive evitar alguns erros. Isso me confere limitações, porque assim acho ser o correcto. Por exemplo, apesar de todas as especulações, apesar de ser a pergunta mais frequente na boca dos jornalistas, nunca respondo quanto eu ganho enquanto acompanhante. Uma pessoa pode fazer as contas se quiser, calcular quanto cobro por hora e supor quantas horas dedico ao acompanhamento, mas nunca vão ouvir da minha boca um valor preciso. Porque eu sei que, mesmo se relatasse os piores acontecimentos na minha actividade, a remuneração, na cabeça das pessoas, ainda é o factor de maior importância, ou seja, se sentiriam motivadas apenas em função dessa informação.

Sobre o sexo na internet, acho importante que os sites ligados ao sexo possam estar atentos quanto à pedofilia. Que possam orientar, por exemplo, como os pais podem evitar que os filhos sejam atraídos pelos pedófilos. Acho que deveria ser obrigatório orientarem sobre as dsts. É igualmente importante que possam passar uma informação fidedigna, e não apenas uma forma de extravasar imaginações ou enaltecer egos fracos. O sexo só é tabu porque a mente das pessoas reagem dessa forma, e porque alguns alimentam conceitos errados.

PS - Quais são os seus planos enquanto autora e enquanto profissional para o médio prazo? Podemos continuar a contar com o blog, teremos mais livros, as pessoas vão poder continuar a encontrar a sua companhia profissionalmente? Depois do sucesso deste livro o que acontecerá com a Paula Lee?

PL - Ô perguntinha difícil, hein? Eu queria ter uma bola de cristal agora, e saber qual será o meu futuro a médio prazo. Tenho planos, isso é verdade, mas a vida tem sempre a sua imprevisibilidade, a sua surpresa.

Como acompanhante, a tendência é o que já está acontecendo: tenho reduzido o número de atendimentos, e sendo cada vez mais selecta, de forma a poder ter encontros cada vez mais agradáveis, com pessoas mais humanas e mais enquadradas na minha filosofia.

Em relação à Paula Lee autora, no mês de Setembro começo a trabalhar num projecto artístico sobre o qual ainda não posso divulgar publicamente, algo de dimensão nacional e no qual irei trabalhar com muito empenho e dedicação, e inclusive aprender muito com os profissionais envolvidos que me contactaram em função do livro.

E agora, nos próximos meses, entro num processo de estudo para aprimoramento da minha escrita. A seguir entrarei numa fase de pesquisa, necessária para um dos meus projectos literários. Mas só depois que fizer esses estudos e essas pesquisas que entrarei na fase de escrita do próximo livro. No momento tenho apenas alguns rascunhos, que ainda não chamo de textos.

Quanto ao blog, pretendo continuar com ele. Entretanto, sei que preciso fazer uma viagem, que ainda não tenho uma data marcada. Adiei essa viagem durante dois anos. No primeiro ano, em 2006, porque foi quando me apareceram as primeiras propostas de edição do livro, era necessário estar em Portugal para ir numa e n'outra reunião. Em 2007 em função da publicação do livro. Ou seja, sei que numa altura vou ter que viajar e vou ter que abandonar o blog durante esse tempo. Também é possível que comece a abrandar o volume de posts no momento em que estiver a me dedicar ao próximo livro. É apenas uma possibilidade. Mas fora isso, continuo com os meus blogs.

PS - Que sugestões daria às suas colegas profissionais para se melhorarem e melhorarem o sector?

PL - Primeiro, não se lesarem, nem enquanto profissionais e nem enquanto pessoas. Segundo, concentrar na qualidade e não na quantidade. Terceiro: saber olhar para o cliente de frente. Creio que falei bastante no assunto na pergunta nº 1.

PS - E aos clientes, o que lhes diria a amante profissional sobre a constante procura de acompanhantes?

PL - É necessário saber respeitar a profissional enquanto gente. Não impor nada, afinal ela não é um objecto ou uma serva. Fazer questão do uso do preservativo. Estar disposto a ser amigo dela, nem que seja uma amizade apenas entre as quatro paredes do quarto.

PS - Porque será que as pessoas têm ainda um preconceito tão grande em relação à profissão? E você? Se tivesse uma filha a querer entrar para o acompanhamento, o que faria?

PL - Não há apenas uma razão, mas várias. Uma delas é que as pessoas têm preconceito com a prostituição porque se incomodam com ela, têm medo dela. Porque a prostituição é - ou pode ser, visto que tal dado depende das suas profissionais - a mais honesta das profissões. Um cliente, quando me procura, sabe que não é o único a estar comigo, não temos nenhuma aliança, nem qualquer tipo de obrigação um com o outro, nem no que diz respeito à fidelidade. Quantas e quantas pessoas, independente do sexo, não se casam ou se relacionam por interesse, seja isso algo que represente dinheiro, ou estabilidade, ou uma promoção na carreira, ou seja lá o que for excepto a pura troca de prazeres e vivências? Sou humilde o suficiente para admitir que exerço essa actividade por precisar dela monetariamente. O que não quer dizer que o único pré-requisito para uma pessoa vir a ser meu cliente seja o que ela possa me oferecer financeiramente. Se por exemplo não precisasse da actividade como fonte de renda, e não tivesse uma ligação amorosa com ninguém, certamente continuaria a ser acompanhante, porém de forma gratuita. Outra razão do preconceito em relação à prostituição é o facto de vivermos numa sociedade monogâmica, uma sociedade que também é muito cheia de regras de comportamento, regras estas em que não importa o que você é, mas o que você aparenta ser. E uma acompanhante é uma acompanhante, parece que tudo se sabe sobre ela, como se todas inclusive fossem iguais. Nenhuma acompanhante se preocupa em aparentar ser santa, porque mesmo se assim parecesse, o facto de ser acompanhante quebraria com todos os seus atributos mais louváveis. Há preconceito com a prostituição porque, apesar de hoje parecermos viver numa sociedade mais liberal, na verdade ainda temos os mesmos conceitos enraizados sobre a mulher, de que esta deve se casar virgem, de que esta deve ser submissa no sexo, de que esta deve servir para esposa, de que esta não pode ter a sua liberdade sexual, ou de que o objectivo do sexo deverá ser a procriação. Somos cercados de conceitos relacionados com o que é moral ou imoral, bonito ou feio, certo ou errado, decente ou indecente, e podemos ser tudo o que quisermos, desde que ninguém saiba. A acompanhante tem um anúncio no jornal, tem hoje uma página web, todo mundo parece saber da sua vida sexual, e isso incomoda as pessoas. Incomoda porque ainda não sabem lidar com as suas próprias vidas sexuais, porque consideram inadmissível ao outro aquilo que não corresponde aos seus conceitos dentro da sua própria vida, porque somos treinados para viver uma liberdade sexual envolvida por uma porta gigante e o buraco da fechadura no meio.

Se tivesse uma filha que quisesse entrar para o acompanhamento, eu enfiava a mão na cara dela. Estou brincando. Acho que o diálogo é sempre o mais importante em todas relações, seja entre pais e filhos, marido e mulher, acompanhante e cliente, etc. Tentaria em primeiro lugar entender as suas motivações. Assim como reagiria caso ela me dissesse que queria ser dentista ou advogada. Mas há aqui um porém. Se ela fosse ser advogada ou dentista, ela faria uma faculdade, ela faria algum estágio, ela conviveria com profissionais da área, etc. Enquanto acompanhante, ela não vai aprender esta profissão numa universidade, ela não vai fazer nenhum estágio antes de começar, ela possivelmente nem vai conviver com tantos profissionais que possam fazê-la crescer profissionalmente. Por essas razões, e em função da minha experiência no sector, não deixaria a minha filha ser acompanhante antes dos 21 anos. Depois que ela estudasse, que namorasse quem quisesse namorar, que aprendesse sobre os amores e os desamores, as tristezas e as alegrias, que tivesse adquirido experiência em outras actividades, etc., ou seja, que tivesse ganhado maturidade através da vida, se decidisse que depois disso tudo o que ela queria mesmo era ser acompanhante... muito bem, força, vai em frente! Mas, sinceramente, não admitiria que um filho ou filha minha fosse acompanhante se reflectisse uma imaturidade, ou apenas alguma espécie de vaidade, ou rebeldia, etc. Criança tem que estar na escola, e não na prostituição. Os pais criam o filho para o mundo, e nós sabemos o quanto esse mundo também pode ser cruel. Mas mesmo criando esse filho para o mundo, se um dia o meu filho cair, não vai ser o mundo que o vai levantar, serei eu, enquanto mãe, que estarei perto dele, estendendo a mão, independente de tudo o que acontecer, independente de tudo o que ele vier a fazer, seja certo ou errado. Por vezes os filhos precisam queimar os dedos para saber que o fogo queima, mesmo que a mãe já lhe tenha advertido. É preciso deixar que os filhos possam ter as suas experiências, mas é preciso estar perto antes que possam cometer grandes incêndios.

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